domingo, 16 de setembro de 2012

Luar prateado final

Dizem por ai que, uma vez que se aprende a ser soldado, nunca mais se esquece a ser um. Balela! Ou eu nunca tinha sido de fato um guerreiro, ou então os meus sonhos, não, sonhos são audazes e selvagens, quando se pensa no futuro com os pés muito no chão, não se pode dizer que se está sonhando... perspectivas, isso, essa palavra é melhor! Ou nunca tinha sido de fato um soldado, ou minhas perspectivas de uma vida tranquila e segura apagaram de mim toda a memória do que é ser um. O mais provável é que fossem os dois: até então nunca tinha sido de fato um soldado, quero dizer ESSE tipo de soldado que eu sou hoje! E você sabe muito bem que há uma diferença grande entre um soldado qualquer, um soldado dos nossos e um soldado do nosso tipo. Pois é! E eu também estava de espírito fraco naquela época, abalado com o fim do meu casamento, com o envolvimento da minha noiva com outro, com o despedaçar dos meus sonh... digo, das minhas perspectivas... com certeza teria entrado em depressão se tivesse parado para pensar, mas felizmente o treinamento não me dava essa chance.

O treinamento, claro, foi muito diferente do que eu recebi para me tornar um cavaleiro e também muito diferente deste que meus homens recebem agora. Diferente da maioria de nós, eu tive que aprender tudo sem contar com companheiros de turma e em um campo de instrução improvisado. Eu, claro, nem suspeitava que o certo seria eu estar treinando em um campo próprio com uma turma de formação, equipes de instrução e tudo mais. Para mim meu comandante estava sozinho numa luta contra o que ninguém entendia e eu era seu único recruta.

Não sei quanto tempo durou aquele meu aprendizado. De início foi aquele inferno que todo bom recruta novato passa: longas marchas, calor infernal, frio de rachar, exercícios físicos, dormir pouco, sujo e com fome... em suma, aprender a ter disciplina sobre o corpo, resistir às intempéries, manter-se firme mesmo quando tudo por dentro está prestes a ruir. E lhe falo que passar toda aquela dificuldade foi como um banho em minha alma! Eu já não amargurava tanto as desgraças que haviam me acontecido. Não, eu lhe garanto, não foi simplesmente o efeito do tempo fechando as feridas.

Depois passamos para o treinamento padrão de um cavaleiro, ou melhor, para uma versão um tanto, hum, digamos, alternativa dele. Não treinamos nada com cavalos! Também nem tinha como... estávamos bem isolado de tudo e de todos, ora nas florestas, ora nas matas, achar um cavalo ali ia ser um tanto complicado. Na verdade, a falta de equipamentos ali me fez o treinamento parecer um tanto... patético! Na hora de lutar com espadas, treinávamos com galhos de árvores, as lanças, fazíamos improvisadas de madeira com ponta lascada. Tentamos treinar com martelos, mas nossa tentativa de construir um com falhou miseravelmente, o mesmo insucesso tivemos com machados. Não preciso dizer que não tocamos em arco e flechas e bestas. Em compensação treinamos muito com bastões (que tiramos de duas enxadas velhas que achamos em uma roça abandonada) e luta corpo a corpo.

Bem... é verdade que talvez nem todas as lutas tivessem feito parte do treinamento... o caso é que as coisas começaram a ficar um pouco mais tranquilas... (mais tranquilas que fazer uma marcha forçada de sessenta e quatro quilômetros, carregando um bom peso em pedras, com água racionada e a três dias sem dormir) e o comandante começou a querer me preparar para o que estava por vir e eu não entendia... sabe? Ele começou a querer dar a entender de onde vinha, o que estava acontecendo e aquilo era demais para o meu mundinho e eu acabava o ofendendo sem querer. Além disso, o treinamento me parecia tão mal planejado que eu passei a encarar aquilo meio que como brincadeira e acabei me dando a liberdade de planejar meu retorno para a vida "normal"... quando o comandante me encontrava nessa situação, eu acabava ouvindo um sermão, que virava bate boca e por fim rolava uma briga daquelas. A briga era feia mesmo e eu acabava virando "besta" de tão estressado que eu ficava! Felizmente nunca nos ferimos seriamente, sempre que o embate chegava no ponto crítico a gente parava se acalmava e acabava esquecendo aquela porcaria toda.

De luta em luta, chegou uma hora que meu comandante perdeu a paciência por completo! Em um determinado dia ele me levou para uma marcha, sem nada dizer e eu sem escolhas fui até aproveitando a caminhada, já que a passada era tranquila e eu não tinha que carregar peso algum. Depois de uma meia hora de caminhada, chegamos no alto de um morro e lá ele gritou uma palavra que me era estranha, uma três vezes. Ele na verdade, como fui descobrir depois, estava chamando um nome: "Aloth". Após isso eu pude perceber que algo veio se aproximando, saindo do bosque do outro lado do morro e subindo o mesmo com uma velocidade e vigor incríveis. Era bem mais rápido que um cavalo e grande, muito grande, devia ter uns três metros de altura, pele prateada e... e eu reconheci aquela criatura, era a que eu vi quando sai da caverna quando fui "transformado". Essa foi a segunda vez que eu vi Dos Aloth e que fomos devidamente apresentados.

Eu não senti medo. Não, não era minha bravura, se fosse bravura eu sentiria medo e conteria ele. Era Aloth que, apesar da aparência, exalava confiança. Se ele quisesse poderia me assustar tanto, que eu teria um ataque e morreria fulminado do coração. Com a impressionante presença do gigante prateado de quatro braços o comandante começou a revelar parte dos fatos (não todos, porque não tínhamos tanto tempo assim). Ele falou que tinha vindo de outro mundo, que tinha descoberto por acidente uma espécie de estrada abandonada entre diferentes universos, que, por meio da estrada, explorou vários lugares, conheceu diferentes criaturas, que um dia se deparou com algo horrível, estranho e enlouquecedor tomando conta de um trecho da estrada, que ele foi a fundo nesse mistério e arrumou um motivo para lutar contra ele (ele não explicou o quão fundo foi e nem o motivo, mas hoje eu acho que sei), que foi visitando cada universo que estava sendo ameaçado por esse fenômeno que ele chamou simplesmente de "horror", que em cada um desses universos ele coletou informações, recrutou seres, conseguiu equipamento, que todos esses lugares já foram perdidos, que um dia encontrou Aloth vagando pela estrada, que Aloth dizia ser enviado dos construtores da estrada para ajudar meu comandante com o objetivo dele, que ele veio fazer uma missão de reconhecimento em meu mundo natal, que o horror não estava aqui ainda quando ele chegou, que foi uma cilada, que quando ele viu o portão para a estrada já estava ocupado pelo inimigo, que ele, meu comandante, tratou de se infiltrar na minha sociedade, que ele conseguiu achar um artefato singular, que conseguiu quebrar passar pela vigilância inimiga e veio para avisar que uma operação de resgate estava para ser efetuada e que, mais um monte de "quês" que eu quase desamei de tanta informação.

Não ache que eu engoli tudo, aquilo foi demais para mim! No fim das contas acabei decidindo que "ajudaria meu comandante a voltar para a tal estrada e depois veria o que faria para rearrumar minha vida". Para você ver como, apesar de tudo, eu estava preso à uma "ideia fixa sensata". No fim das contas era só uma decisão ridícula, afinal eles, naquele momento, não precisavam da minha ajuda. Mesmo assim continuaram me treinando, porque meu comandante pensava que eu iria junto com eles.

O treino, ministrado por Aloth, foi um tanto interessante e tinha o objetivo de me dar preparo psicológico para lidar com o Horror. Foi mais um aprendizado de como direcionar minhas emoções mesmo,  claro que eu não aprendi nem metade do minimo que se precisa para tal empreitada, mas foi o suficiente para eu não me borrar todo ao ver o inimigo. De quebra, ao fim disso tudo eu também passei a conseguir controlar minha transformação em fera.

Quando finalmente chegou a hora, partimos para as montanhas onde se encontrava o complexo de cavernas e o portão para a estrada. Você pode estar esperando uma narrativa de combates emocionantes, mas esqueça, não tivemos um confronto sequer! Chegamos no complexo e demos de cara com a força tarefa de resgate, eles já tinham atacado e montado uma cabeça de ponte ali, já fazia um bom tempo.

O portão no caso, era um arco de pedra, largo o suficiente para passar uns três soldados de uma vez, cravado na parede da mesma e mostrando um caminho de escuridão sobrenatural. Quando o comandante me convidou a entrar e eu recusei, me preparei para tomar um esporro seguido de um imenso sermão, mas não teve nada disso...

-Já esperava por isso.

-Senhor?

-Aloth me contou que  você não nunca pretendeu vir conosco, seu objetivo ainda é recuperar a antiga vida.

-É que, veja bem com...

-Deixa de conversa fiada. Você está decidido à isso por que é um imbecil de marca maior. Mas eu não vou te forçar a nada.

-Aãh... obrigado por tudo então comandante! - e eu já ia embora...

-MAS, lhe adverto que esse universo, não demora muito, cai nas mãos do Horror.

-E... o que significa isso?

-Não sei cacete! Nunca fui idiota para ficar em um para descobrir.

-Ainda sim senhor prefiro morrer aqui q...

-Deixa de ser retardado, quem disse que você vai morrer?? Isso não é uma invasão inimiga normal...

-Ah... não??

-Eu não vou te explicar isso. Vamos fazer um trato, você vai sair daqui, vai ir hoje mesmo para a sua cidade...

-Eu não posso entrar lá...

-Dê seu jeito! Continuando, você vai entrar lá, vai achar sua noiva, vai conversar com ela, vai ver como estão as coisas por lá e vai decidir se quer ficar aqui, ou não. Nós vamos manter essa cabeça de ponte aqui por mais três dias. Se mudar de ideia, pode vir para cá, pode trazer a garota também.

-Senhor, me desculpe, mas não...

-Para de me amolar e vai logo!

***

E eu fui. É isso mesmo, eu era retardado a ponto de decidir ficar num universo a mercê do Horror. A sorte é que eu também fui de fato atrás da minha ex-noiva. Me infiltrei na cidade à noite, com o faro apurado que eu ganhei com minha transformação, consegui sentir o cheiro dela, com um perfume barato, misturado ao de outras mulheres e homens em... um... conhecido... bordel...

Corri para lá sem a menor descrição! Entrei no estabelecimento e logo se instaurou um silêncio geral! Vi minha garota lá, vestida como uma meretriz, me encarando com um olhar de medo, ou talvez repreensão....

-Vo-você?

Me aproximei dela, não estava entendendo nada daquilo.

-M-meredy? O que aconteceu? Não estou entendendo...

Ela virou o rosto e disse num tom melancólico:

-V..vamos conversar num lugar mais reservado...

Fomos para um dos quartos do local. Assim que nos fechamos a música e a festa voltaram no salão principal.

-Meredy, o que houve? Não ia se casar c-com um nobre?

-Meu pai morreu em um ataque das criaturas e minha mãe se tornou uma transformada. Sem pais, ou tios, como é o meu caso, uma moça passa a ser responsabilidade do noivo...  -ela parou e deu um suspiro profundo - eu, eu deixei que ele me desonrasse e quando chegou o dia do casamento, eu não era mais digna e ele fez o que, o que era certo... -outro suspiro- e me entregou para a cafetina...

-Certo? Você acha realmente isso???

Ela agora estava aos prantos!

-Uma moça tem que se casar virgem!

-E está feliz com essa vida?

-É a vida que eu mereço!

O pior é que dava para perceber, pelo seu olhar, que ela realmente acreditava naquilo.

-Você não precisa continuar nessa condição! Venha comigo, vamos para um lug...

*BLAM!

Nem terminei a frase e alguém meteu o pé na porta, me virei e vi dois guardas da cidade seguidos de um jovem lorde local e a cafetina.

-Ela não vai a lugar algum, é minha propriedade! - Disse a dona do prostíbulo.

-Quero ver quem vai me impedir. -Falei em um tom tão baixo e tão raivoso, que mais pareceu um rosnado.

-Seu merdinha! Está querendo me ofender? Meredy é minha puta! - Disse o jovem lorde.

-Meu noivo por favor...

-Calada! Meretriz! Não me chame de noivo!

Pelo que entendi foi aquele sujeito que desonrou Meredy. Se era mesmo eu não sei, só sei que senti que estava prestes a explodir de raiva, prestes a me tornar fera e dessa vez eu não lutei nem um pouco para evitar isso.

-DEMÔNIO!! - gritou alguém, apavorado com minha aparência.

-MATEM ESSA BESTA!! -disse o lorde.

Um de seus guardas já estava todo mijado e o outro, mais valente (talvez o único bom homem com coragem no coração naquele lugar podre) avançou com sua lança para cima de mim, só para terminar com a cabeça arrancada por uma patada minha. Me virei para o outro guarda, o covarde tremia tanto que mal conseguia ficar de pé! Tomei sua lança sem dificuldades e usei ela para empalar o coitado.

-CHAMEM A GUARDA!! CHAMEM A GUARagh!! - saltei para cima do "noivo" de Meredy e lhe arranquei o coração! Em seguida ceifei a vida da cafetina, parti para o salão principal e dizimei todos os que encontrei. Quando a última vítima caiu morta no chão, me voltei para Meredy, confiante e orgulhoso, acabara de mostrar que poderia defender ela de qualquer coisa e confiava que ela decidiria partir comigo.

-Vamos querida?

Mas para meu espanto, ela, que assistiu a cena com o pavor estampado na face, agora me olhava com desprezo e reprovação.

-Você... você matou todas essas pessoas??? Seu, seu bárbaro! Seu monstro!

-Meredy?

-Como pode matar meu ex-noivo? Ele era um dos homens mais distintos dessa cidade!

-Está louca Meredy???

-Louco está você!!! Seu... seu demônio! Eu nunca irei viver com um bruto, um ignorante como você!

Talvez fossem conceitos arraigados demais nela, talvez fosse sua mente fechada, talvez tivesse ficado louca. Mas na hora, a única coisa que eu percebi, foi um medo, um pavor de lutar, de combater, um conformismo doentio... Ela estava lá, naquela condição precária e concordava com aquilo tudo, só para não ter que confrontar os outros e brigar por uma nova condição. Eu, senti nojo, dela e de mim, pelo papel que eu tinha feito naqueles últimos anos...

Não aguentei ficar ali nem mais um segundo. Já na minha forma natural caminhei para fora daquele antro de podridão e me dirigi para a saída da cidade. Estava desolado e acredite, eu ainda não sabia o que fazer...

-Woof! Woorf!

Me virei para os latidos e reconheci um grande e jovem lobo prateado. Lobos adultos não costumam latir, eu sei, mas aquele parecia desconhecer a regra. Ele também nem estava agindo como um lobo, mas sim como um cão, abanando o rabo e fazendo festa para mim... claro me senti bobo por não o ter reconhecido!

-Lobinho! Nossa! Como você cresceu!

-Esses animais são fiéis à sua matilha, nunca se esquecem de seus companheiros e sempre estão dispostos a lutar por eles! - Olhei e vi um andarilho, era estranhamente alto e forte para um mendigo, usava um capote que lhe cobria todo o corpo e seu chapéu fazia sombra sobre seu rosto.

-Cuidou dele andarilho? Eu lhe agradeço!

-Não cuidei de nada! Ele viveu por conta, apesar de sua criação ele nunca esqueceu sua essência. Um exemplo importante! Sempre poderemos viver enquanto nos lembrarmos de quem somos!

-Hahaha, um mendigo filósofo! Não está falando coisa com coisa, mas mesmo assim lhe agradeço!

-Só lamento pelo seu cavalo, ele morreu quando seu ex-sogro foi atacado!

-Hã?? Como sabe quem sou???

-Não se apavore! É uma cidade pequena e uma gente fofoqueira, todo mundo sabe de todo mundo, inclusive da triste história de Meredy.

-Não sei o que fazer... - "com relação à ela", eu ia falar, mas o estranho me interrompeu.

-Volte para sua matilha, oras!

-E eu voltei oras!

-Matilha é por quem você luta e ao mesmo tempo quem luta por você!

Me virei para a montanha da caverna, respirei fundo e quando me virei de volta não vi mais o mendigo. Não tive dúvidas, joguei o lobinho ,que de inho não tinha mais nada, no ombro (o safado ainda tentou me morder), me tornei fera e saí em disparada rumo ao portão.

A caverna estava iluminada pelos raios prateados de uma lua cheia, alguns homens estranham minha forma feral, mas ninguém esboçou uma reação hostil. O comandante estava lá, de pé, dando instruções à um grupo de combate, ele planejava invadir a cidade e me levar nem que fosse na base da porrada. Ficou aliviado ao me ver, estendeu a mão e disse

-Bem vindo ao grupo, Karl Rudo.

***

O adjunto parecia impressionado:
-Nossa senhor, nunca tinha ouvido sua história de recrutamento, mas o que eu perguntei era se...

-Se eu já desejei outra vida, ser um bem sucedido homem de família, me preocupando apenas com a família, a carreira e o fim da vida e blablabla... eis ai sua resposta, já desejei e ainda desejo. Posso ser um homem bem sucedido, de família, me e preocupando apenas com ela, com a carreira e com o fim da vida E fazer o que eu faço. Só não posso mudar minha essência! O meu sucesso não pode ser apenas material, o meu conceito de família sempre vai abranger meus irmãos de arma, nunca vou deixar de me preocupar com ela, minha carreira nunca vai se limitar ao meu trabalho e minha que a única preocupação com o fim da minha vida seja em morrer lutando, seja qual for o tipo de luta, que seja luta nobre. Entendeu?

-Sim senhor!





domingo, 9 de setembro de 2012

Luar prateado parte IV

Eu não lembro muito de como eu acordei, acho que fiquei meio anestesiado por quase um dia inteiro, com a vista trêmula, sonolento, sem conseguir sentir nada: frio, calor, dor, cheiro, ou gosto. A questão é que quando me dei por mim, eu já sabia que eu estava flutuando, imerso em um líquido estranho, um tipo de gelatina. Já sabia também que aquilo tinha um cheiro forte e nauseante, já sabia que estava com dor e com frio. Sabia disso tudo, mas não tinha parado para pensar ainda.

Até que lembrei que eu precisava de ar!

Eu notei que eu estava numa casulo translúcido e não perdi tempo em rasga-lo com minhas garras! Isso mesmo garras, minhas mãos ganharam grandes garras negras e meus antebraços estavam cobertos de pelos prateados! Logo que notei isso meus pelos eriçaram, a pelagem começou a subir meus braços e eu senti uma dor insuportável no corpo! Olhei para baixo, minhas pernas estavam peludas e... pelo grande universo... meu tronco estava rachando! Senti uma dor lancinante em minha face e não aguentei, desmaiei.

Acordei novamente, no chão duro e frio de uma caverna, a minha frente estava o casulo rompido, com um aspecto bem apodrecido. Eu me levantei com bastante dificuldade, estava atordoado, com fome e sentindo muita dor. Notei que estava quase "normal"... haviam alguns tufos de pelo prateado pelo meu corpo e eu estava muito magro, mas no geral ele estava normal. Vi também que eu estava nu, mas não me importei tanto com isso na hora.

Olhei em volta e vi que estava em uma caverna, uma caverna pequena, clareada pela grande abertura que era sua entrada. Respirei fundo, o ar era pesado e desagradável, carregado de podridão, eu acho que teria vomitado, se tivesse algo na barriga para jogar fora. Foi como se eu tivesse ido e cheirado cada canto daquela caverna, não precisei nem ver para saber que haviam outros casulos podres naquele lugar, que haviam restos de lobos por todo o chão e que havia algo diferente no fundo da caverna. Me virei, vi e acho que nunca senti tanto medo na minha vida.

Era uma criatura gigantesca, devia ter uns três metros de altura, ela tinha duas pernas incríveis e quatro braços, um par grosso e robusto terminando em uma mão de apenas três dedos e outro mais fino terminando em mãos de cinco dedos, digo, mais fino em comparação com o outro par, por que mesmo este devia ser mais grosso que minhas pernas juntas! A cabeça da criatura era ovalada na frente e se estendia formando um losango atrás! Ela tinha quatro olhos muito negros e dentes pontudos, grandes e afiados! Sua pele era fibrosa e da cor da mais pura prata! Eu senti muito medo, senti que aquilo ia me atacar! Mas de repente o medo sumiu e a criatura, num só salto, saiu para fora da caverna e foi embora correndo.

 Eu resolvi fazer o mesmo, tinha que voltar para a casa, tinha que comer, descansar e principalmente, tinha que ver como estava Meredy. A passos cansados, pus-me a marchar até a cidade.

***

Não faço a menor ideia de como consegui me orientar, bem, na verdade faço, mas isso não importa, o que importa que depois de quase um dia andando eu cheguei no rancho da família da minha noiva. Rastejei até o casarão e bati na porta, por algum motivo eu tinha esperança que minha amada estivesse lá, que ela cuidaria de mim e que eu poderia descansar, mas quem atendeu a porta foi uma empregada, ela gritou e eu desmaiei.

Acordei no porão da casa, estava deitado em algo fofo e coberto, mas também notei que estava preso por grilhões e algemas. Tentei me levantar e consegui sentar na minha "cama". Vi que dois empregados do meu sogro me olhavam severamente, ambos portavam machados e não estava com um olhar receptivo. Uma empregada me deu algo para beber e um mingau para comer e depois se retirou. Fiquei quieto esperando minha sina.

Não demorou muito e a empregada voltou com meu sogro. Ele entrou ficamos nos encarando por um tempo, até que ele quebrou o silêncio:

-Consegue me compreender?

Assinalei com a cabeça que sim.

-Faz quase um ano que você desapareceu...

Um ano? Para mim foi um espanto! Eu já suspeitava que tinha perdido algum tempo, mas não tinha imaginado que havia sido tanto.

-E pensamos que você tinha sido pego e morrido... antes fosse essa a verdade... veja só, justo meu ex-genro um transformado!

Foi um baque para mim! Eu não tinha pensado em nada direito ainda. Transformado? Mas o pior foi a palavra "ex-genro".

-E...ex-genro?

-Entenda, foi duro para a gente, até gostávamos mesmo de você, mas você sumiu, minha filha ficou bastante abalada, um outro rapaz apareceu, um filho de um nobre, bom moço, consolou ela e... bem, eles já estão noivos...

-Não! - Senti meu coração bater mais rápido, meu corpo todo começou a doer.

-Esperava o que? Que minha filha ficasse solteira para sempre?

-E...eu voltei...

-Ridículo! Olhe para você! Um monstro! Um transformado! Antes estivesse morto!

Senti minhas mãos ardendo, senti que ia explodir, mas de repente consegui ficar calmo.

-Escute rapaz, não lhe desejo mal, mas você não pertence mais à essa distinta sociedade. Conhece as leis, todo e qualquer capturado que voltar deve ser executado. Eu não quero fazer isso com você, por isso, por favor, não volte mais aqui, não procure mais Meredy, fui claro?

-V..vai me libertar.

-Vou sim, não quero carregar sua morte.

-Certo...

Não consegui agradecer. Me deram mais um pouco de mingau, me vestiram alguns trapos e depois, ainda acorrentado e com um saco na cabeça, me levaram pela mata e me abandonaram em uma clareira. Eu ainda estava bem fraco e não tinha a menor esperança de me libertar daquelas correntes... sim, eles não se deram ao luxo de tira-las de mim. Esperei que a morte viesse me buscar, mas outro me encontrou antes.

***

Meu comandante. Ele vestia uma armadura estranha e empunhava uma espada negra, mas na hora não notei direito, não queria saber de nada, queria morrer.

-Ora! Você? Aqui? 

Não respondi nada, nem olhei para ele.

-Que correntes são essas? hahaha... sempre ouvi dizer que o casamento acorrentava as pessoas, mas sempre achei que fosse mera figura de linguagem!

-Eu não me casei. -Respondi quase que rosnando.

-Eu sei que não. - O tom de voz dele mudou, ficou mais sério - Sei que você foi capturado e modificado.

-... Vai me matar então? - Não foi nem uma pergunta, foi uma espécie de apelo sem muita emoção.

-Não, não vou. Erga esse braço para eu poder tirar essas correntes.

Fiz o que ele mandou. Ele usou a espada, a lâmina da espada ficou estranhamente "trêmula" e ele cortou as minhas algemas como se fosse manteiga.

- Vou tentar te recrutar, de novo.

-Perda de tempo. Eu não sirvo mais para soldado, não sirvo mais para nada, sou uma escória...

-E dai?

-Sou um transformado, sou parte do inimigo!

-É mesmo? Quantas pessoas você já matou?

-hum...

-Pelo inimigo! Não conte sua vida de cavaleiro.

-Eu não quero matar ninguém. Mas posso perder o meu controle e...

-E o que?

-Não sei. Atacar meus colegas, até o senhor talvez.

-Acha que não consegue se controlar?

-Não consigo mais nada... sou um lixo, faria um favor se me matasse.

Eu não estava pensando nisso na verdade. O fato é que eu estava cheio de pena de mim mesmo e estava me vendendo como escória a fim de ouvir algumas palavras motivadoras. Infelizmente eu estava conversando com o comandante.

-Não vou te matar. E não se preocupe em me atacar, na atual circunstância você tomaria uma baita de uma surra!

-Ah! É por que você não viu os outros transformados... o mais fraquinho precisou acabou com mais de vinte homens da guarda antes de ser parado...

-Até aquelas porcarias tem mais dignidade que você! Se não fosse amigo meu eu não insistiria em te chamar para vir comigo.

-Então o senhor está me chamando só por amizade.

-Isso. E pena talvez.

-Então desista, só vou ser um fardo...

Nem terminei de falar isso e o comandante me segurou pela gola e me deu uma baita de uma sacudida!

-VOCÊ VEM COMIGO ENTENDEU??? NÃO É UM PEDIDO!! É UMA ORDEM!!! VOCÊ VAI VOLTAR A SER UM SOLDADO E É AGORA!

Foi como se a explosão de raiva dele tivesse expulsado todos o pesar do meu espírito, não consegui pensar em mais nada! Só consegui responder uma coisa:

-Sim senhor!